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Existe um programa de computador que registra tudo o que você faz na
internet. Acionado, ele sabe que você entrou no Orkut, digitou o nome de
uma ex-namorada no campo de busca, depois visitou o perfil dos amigos
dela. Também viu que entrou num site de vendas e procurou uma nova
torradeira. Anotou as opções que você comparou. Acompanhou sua visita ao
site do banco para consultar o saldo. Seguiu seus passos no site de
e-mail enquanto você abria cada mensagem. Viu que você entrou no
Facebook. E quando você clicou num vídeo divertido que alguém
recomendou. Esse programa anota quanto tempo você gastou em cada uma
dessas atividades. E transmite toda essa informação a uma empresa que
analisa seu comportamento e o classifica de acordo com algum rótulo. Soa
amedrontador? Pois é real. Esse tipo de invasão de privacidade ameaça
os internautas brasileiros.
A sequência acima, de rastreamento da navegação na internet, descreve o
serviço oferecido pela empresa inglesa Phorm. Ela está chegando ao
Brasil. Seu principal cliente aqui é o provedor de internet Velox,
serviço oferecido no Rio de Janeiro pela operadora de telecomunicações
Oi. A Oi está testando aqui uma versão do programa da Phorm chamada
Navegador. É uma tecnologia que está longe de ser aceita no mundo. Desde
2002, quando foi criada pela Phorm, ela tem gerado controvérsia
internacional e levantado preocupações em grupos ligados à defesa dos
direitos civis na internet. Essas resistências dificultaram sua adoção
nos Estados Unidos e na Europa. Há o temor de que as informações
pessoais sejam usadas de forma indevida. É evidente que uma empresa
telefônica não pode grampear suas linhas. Por que, afinal, seu provedor
de internet teria direito de saber o que você faz na rede? Um programa
espião ameaça nossa liberdade?
Sua chegada foi discreta no Brasil. A primeira rodada de testes com o
Navegador foi anunciada em março pela Oi, dona do provedor de banda
larga Velox e do portal iG. De acordo com a Oi, ele começou a ser
oferecido a internautas do Rio de Janeiro. A intenção da Oi é expandir
aos usuários de todo o Estado até o final de 2010. O Navegador é um
rastreador remoto (não fica instalado na máquina do usuário) dos passos
que um internauta dá na rede. No início dos testes, Oi e Phorm
anunciaram uma parceria com os portais Terra, UOL e Estadão. Procurada
por ÉPOCA, a assessoria do Grupo Estado afirmou que “a parceria nunca
existiu e o nome da empresa foi usado à revelia”. A Oi confirmou a
parceria com UOL e Terra.
O objetivo do Navegador é detectar as preferências de quem navega na
rede. A promessa da Oi é oferecer ao usuário uma navegação
personalizada. Quem é torcedor do Flamengo passaria a ter
automaticamente na tela do computador mais informações sobre o time.
“Uma página será apresentada aos clientes para que decidam se desejam
ativar a ferramenta”, diz a Oi. “A escolha e decisão é do cliente.” Oi e
Phorm também afirmam que a tecnologia do rastreador traça o perfil dos
usuários sem identificá-los. Isso seria possível graças a um recurso
técnico. Assim que um internauta se conecta à web, imediatamente o
Navegador associa a ele um número aleatório. É esse número interno – e
não um nome público ou um endereço fixo na internet (conhecido
tecnicamente como IP) – que a Phorm usa no rastreamento. “Nenhum dado
pessoal, histórico de navegação ou endereço IP é armazenado pela
ferramenta”, informou a Oi. “O sistema não rastreia e-mails, salas de
bate-papo e páginas seguras, como sites de banco.”
O programa da Phorm também permite que o provedor de acesso mostre, a
cada usuário, anúncios específicos, de acordo com seus interesses
pessoais. Sites que tenham acordo com o provedor poderiam vender
anúncios prometendo veiculá-los a internautas cujo perfil fosse mais
interessante ao anunciante. Tal sistema é apresentado como um modo de
aumentar a receita de provedores e sites de conteúdo. Só que, além de
invasivo, ele pode representar uma concentração de poder nas mãos de uma
empresa cuja missão deveria ser prover acesso de forma indistinta – sem
discriminar o conteúdo ou publicidade que trafega em sua rede. Numa
comparação com outro setor, a situação seria equivalente a uma empresa
de eletricidade receber dinheiro cada vez que você ligasse uma
determinada marca de eletrodoméstico na tomada.
Tamanho poder nas mãos da Phorm e da Oi pode representar uma ameaça à
concorrência no mercado de publicidade on-line. A Oi argumenta que, como
o iG detém em torno de 5% desse mercado, essa ameaça inexiste. O
Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) deverá julgar nas
próximas semanas a parceria entre Oi e Phorm. Até agora, a Secretaria de
Direito Econômico (SDE) e a Secretaria de Acompanhamento Econômico
(SEAE) deram parecer favorável à Oi. O caso estava na pauta do dia 5 de
maio, mas o Cade decidiu pedir mais informações à Oi. Um novo julgamento
ainda não foi marcado.
Além das questões comerciais, o maior estigma em torno dos programas de
rastreamento da Phorm é a ameaça à privacidade. O Brasil está recebendo
um programa espião rejeitado em outros países. O histórico da Phorm é
sombrio. Ela foi fundada em 2002, com o nome de 121Media.
Especializou-se na criação de programas para publicidade on-line. Seu
primeiro produto foi classificado como um spyware, nome técnico dos
programas espiões que se instalam na máquina do usuário sem
consentimento e enviam informações a terceiros. No início da década
passada, esses programas eram tão populares quanto difíceis de apagar. A
Phorm recebeu notificações de órgãos de segurança de países como
Estados Unidos, Canadá e Inglaterra pedindo que interrompesse as vendas
por ferir a segurança e a privacidade do internauta.
A Phorm então desenvolveu o Webwise, programa que diz tratar o
internauta de forma anônima. Sites como Google, Amazon e Wikipédia
bloquearam o Webwise em suas páginas por desconfiança. Personalidades
como Tim Berners-Lee, criador da web, criticaram a falta de
transparência (leia mais no quadro ao lado). O caso mais delicado
envolveu a British Telecom (BT), operadora estatal de banda larga da
Inglaterra, acusada de infringir as leis de privacidade da União
Europeia por fazer, entre 2006 e 2007, testes do programa com 18 mil
clientes – sem consultá-los. O mal-estar foi tamanho que a BT teve de
abandonar o projeto em 2008. “A ferramenta da Oi tem uma proposta de
valor e modelo de implementação totalmente diferente do Reino Unido”,
informou a Oi.
A Phorm não é a única empresa que rastreia hábitos do internauta para
alocar publicidade. Grandes sites, como o Google, tentam adivinhar o
gosto do usuário a partir do que ele busca ou digita. O Facebook também
enfrenta questionamentos sobre sua política de privacidade. Vários
internautas têm abandonado o Facebook por causa disso. Mas o
rastreamento da Phorm dá um passo além. Por dois motivos. Primeiro, os
outros sites avaliam seu perfil, mas sua vida digital não fica toda
guardada neles. Quando a Phorm espiona, ela rastreia tudo o que você
faz. Segundo motivo, as empresas de busca e redes sociais precisam do
retorno publicitário para manter seus serviços gratuitos. Os provedores
que usam o programa da Phorm já são pagos por você – e pelo acesso, não
por conteúdo.
O grupo AntiPhorm, uma ONG de defesa de direitos civis na internet,
lançou programas para bloquear o rastreador. Um deles, o Dephormation,
funciona simulando atividade na internet de seu computador. Com isso, os
dados que a Phorm rastreia ficam poluídos com informação falsa e perdem
valor. O navegador Firefox oferece uma ferramenta chamada Firephorm,
que impede a Phorm de anotar os sites que você visita. As próprias
empresas que anunciam podem se recusar a adotar o sistema da Phorm por
julgar importante manter a privacidade de seus clientes e por desconfiar
que esses dados possam ser usados por concorrentes. “Alguns podem
avaliar que explorá-los configura espionagem industrial”, diz Jim
Killock, da Open Rights Group. Isso explica, em parte, a reação negativa
da Amazon.
O Brasil pode criar barreiras contra esse tipo de insegurança digital
com o novo marco regulatório da internet, lei que esteve em consulta
pública nos últimos meses e deverá seguir para o Congresso no final do
semestre. Até agora, o texto não aborda especificamente programas de
rastreamento, como o Webwise ou o Navegador, da Phorm. Mas dá uma
indicação de que isso pode ser considerado ilegal. Num dos parágrafos,
afirma que o provedor “fica impedido de monitorar, filtrar, analisar ou
fiscalizar os conteúdos dos pacotes de dados, salvo para administração
técnica de tráfego”. Se essa norma for aperfeiçoada, os brasileiros
podem ficar mais protegidos contra as tentativas de espionagem de sua
vida privada.
Fonte - Revista Época
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